
A Associação Luís de Camões tem a honra de destacar a trajetória de um dos mais ilustres e antigos pesquisadores do Real Gabinete Português de Leitura: Carlos Francisco Moura. Arquiteto de formação e historiador por vocação, Moura é uma figura central na conexão intelectual entre Brasil e Portugal, integrando instituições de renome como a Academia das Ciências de Lisboa, a Academia Portuguesa de História, a Academia de Marinha, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o Liceu Literário Português e o próprio Real Gabinete Português de Leitura.
Sua vasta produção acadêmica, várias delas fruto de uma colaboração estreita com o Real Gabinete e o Liceu Literário Português, atravessa fronteiras. Hoje, suas obras compõem os acervos de importantes bibliotecas nacionais e internacionais, servindo de referência para estudiosos das relações luso-brasileiras.
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Astronomia na Amazônia do século XVIII
O que começou como um estudo desenvolvido ainda no período em que Carlos Francisco Moura lecionava na Universidade Federal do Mato Grosso — onde trabalhou por 16 anos, nos primórdios da instituição —, depois complementado por pesquisas no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, transformou-se em um livro inédito para a historiografia, rendendo-lhe prêmios e títulos que reafirmam sua excelência acadêmica.
“Astronomia na Amazônia do século XVIII”, publicado em 2008 pelo Real Gabinete Português de Leitura, retrata a saga dos matemáticos e astrônomos Ignác Szentmártonyi (1718-1793?) e Giovanni Angelo Brunelli (1722-1793), enviados à América portuguesa no contexto das negociações de limites entre as coroas ibéricas, cerca de 250 anos atrás. Em meio aos esforços diplomáticos de Portugal e Espanha para pôr fim a disputas territoriais e estabelecer fronteiras mais precisas em suas colônias sul-americanas, coube a esses especialistas a tarefa complexa de realizar observações astronômicas, calcular latitudes e longitudes e produzir informações que subsidiassem uma cartografia mais rigorosa da região amazônica.

Com base em ampla documentação, Carlos Francisco Moura reconstrói não apenas as etapas dessa missão científica, mas também o cotidiano dos expedicionários, as dificuldades impostas pela geografia e pelo clima da Amazônia e os desafios técnicos enfrentados em campo. O autor descreve minuciosamente os instrumentos científicos e os livros que acompanharam os astrônomos, evidenciando o grau de sofisticação dos saberes mobilizados na empreitada.
Ao mesmo tempo, a obra ilumina as trajetórias pessoais de Szentmártonyi e Brunelli, acompanhando-os desde a atuação na colônia até o retorno a Portugal, revelando as implicações políticas e científicas de sua participação na demarcação de fronteiras. O resultado é um estudo que articula ciência, política e território, demonstrando como a astronomia foi decisiva para a consolidação dos domínios coloniais e para a construção do conhecimento geográfico sobre a Amazônia no século XVIII.
Elogiado por pesquisadores portugueses e brasileiros, o livro foi distinguido com o Prêmio 8º Conde dos Arcos para Estudos de História Luso-Brasileira, concedido pela Academia Portuguesa da História.

Raquel Soares/RGPL
Por Raquel Soares e Gabriel Ferraz



